Banco do Brasil (BBAS3): Navegando por Ventos Desafiadores após um Ciclo Excepcional
Após um período de performance extraordinária que se estendeu de 2021 até meados de 2024, o Banco do Brasil (BBAS3) se depara com um cenário consideravelmente mais complexo em 2025. Fatores como a deterioração no crédito rural, uma queda acentuada na rentabilidade e uma correção expressiva no preço das ações marcam este novo momento. Segundo Daniel Utsch, gestor de renda variável da Nero Capital, o atual período é uma consequência de uma "tempestade perfeita", vindo após um ciclo de prosperidade incomum.
De Alta Performance a Desafios do Agro
"O Banco do Brasil teve um desempenho excelente, muito acima da expectativa, entre 2021 e meados de 2024", relembra Utsch. Esse sucesso foi impulsionado por um ciclo agrícola favorável, a robusta carteira de servidores públicos federais e um Retorno Sobre Patrimônio (ROE) que ultrapassou os 20% – um patamar historicamente elevado para a instituição.
No entanto, a virada começou a se desenhar há cerca de um ano e meio. A degradação significativa do agronegócio elevou os índices de inadimplência a patamares recordes, exercendo forte pressão sobre a rentabilidade. "Agora tem um ano e meio que passa, entre aspas, por uma tempestade perfeita, puxada pelo agro, que piorou demais", afirma Utsch. Essa conjuntura levou o ROE a recuar para aproximadamente 8,5%, um número substancialmente inferior ao pico do ciclo anterior.
A Raiz do Problema no Agronegócio
Na visão do gestor, os desafios atuais do setor agropecuário são majoritariamente conjunturas. Apesar de os preços das commodities agrícolas ainda apresentarem uma relação favorável em termos históricos quando comparados à taxa de câmbio, o setor sofreu com um expressivo aumento de custos nos anos precedentes. "Muitos produtores talvez tenham investido mais do que deveriam e assumiram uma alavancagem mais alta", explica.
Este movimento foi particularmente acentuado entre pequenos e médios produtores, com ênfase especial no Sul do Brasil, incluindo o Rio Grande do Sul. "O produtor enorme do Mato Grosso não teve tanto essa característica, mas os pequenos e médios do Sul, sim." É precisamente neste segmento mais exposto que o Banco do Brasil possui sua maior participação, algo que, segundo Utsch, é natural dado seu papel histórico em fomentar o agronegócio.
Adicionalmente, o cenário climático adverso da safra mais recente contribuiu para o pico de inadimplência observado. Para mitigar esses efeitos, o banco tem implementado diversas medidas internas, como renegociações, extensões de prazo e rolagens, buscando uma recuperação efetiva da inadimplência ao longo do tempo.
Perspectivas para 2026 e Além
A expectativa é de uma melhora gradual com a acomodação do ciclo do agronegócio, mas uma recuperação completa não deve ocorrer no curto prazo. "A gente espera uma melhora, mas ainda não vem toda provavelmente nesse ano de 26", pontua Utsch. Um retorno sobre capital que supere o custo de capital, segundo o gestor, é mais provável para 2027 ou 2028.
Mercado e Valuation: Uma Oportunidade de Longo Prazo?
Atualmente, o mercado tem refletido esse cenário nos preços das ações. O papel do BBAS3 acumula uma desvalorização de aproximadamente 35% a 40% em relação às máximas recentes, negociando a cerca de 0,7 vez o valor patrimonial e com múltiplos entre 4,5 e 5 vezes o lucro. "É uma queda relevante, óbvio que aconteceu, mas a gente acha que vai ter uma reversão", afirma Utsch, reforçando que a tese de investimento se concentra no longo prazo.
O Fator Político e a Visão da Nero Capital
Além dos desafios operacionais, o gestor destaca o risco político inerente a uma estatal, especialmente em um ano eleitoral. "A gente tem um ano eleitoral, uma eleição que muito provavelmente para o mercado vai ser bastante binária, polarizada, e isso reflete também nas ações." Embora o BBAS3 não seja considerado tão sensível politicamente quanto em períodos anteriores, esse fator tende a ganhar relevância ao longo de 2026.
Ainda assim, a Nero Capital mantém uma visão construtiva para investidores de longo prazo, fundamentada no valuation deprimido e na perspectiva de normalização gradual. "A gente gosta da posição olhando para um prazo mais longo", conclui Utsch, reconhecendo que o caminho para a recuperação pode ser lento e volátil.
XP Vê Melhoras Graduais em 2026
A XP projeta uma melhora nos indicadores de inadimplência para 2026, embora sem expectativa de reversão de provisões no curto prazo. Para que isso ocorra, é necessário que os produtores demonstrem um comportamento de pagamento consistente, menor alavancagem, garantias mais robustas e fluxos de caixa mais saudáveis. "As melhorias serão graduais", apontam os analistas, destacando que o crédito rural, embora essencial a longo prazo, deverá crescer em um ritmo mais moderado, com maior disciplina de risco e seletividade.
A XP mantém uma recomendação neutra para os ativos do Banco do Brasil, com um preço-alvo de R$ 25.